O povo Xavante aos olhos de um de nossos viajantes!

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Em 2018, o Sávio foi um dos viajantes que estiveram conosco na aldeia Xavante Etenhiritipá, participando de nossa Vivência Xavante.

Recentemente, Sávio publicou seu ensaio fotográfico desta visita e junto com ela fez um relato sobre sua experiência na aldeia, sobre as impressões que teve sobre o povo Xavante.

Sávio é Doutor em Sociologia e professor da Universidade Regional do Cariri – Ceará.

Separamos algumas imagens e alguns trechos de seu relato em nosso blog. Confira!

Xavante: Povo Sonhador

Jovens Xavante disputam a Noni, corrida que desfaz desavenças

[Os Xavante] consideram o estado de sonho tão importante quanto o estado de vigília. A vida transcorre em rituais de preparação para a etapa seguinte, tendo como pano de fundo, a abertura para o plano do sonho, no qual eles fundamentam o cosmos e sua estrutura social. Sonhando recebem orientações espirituais e indicações para o cotidiano, onde o mundo masculino tem atributos definidos, assim como o das mulheres.

O casamento nas aldeias xavante:

Mulher xavante se prepara para acompanhar ritual

Soube da complexidade nos casamentos Xavante, que constituem às vezes em poligamia ou poliandria, com finalidades diversas, sobretudo: de equilibrar a gestação de membros masculinos e femininos na aldeia; para promover amizades entre clãs e entre aldeias, e como moeda de trocas econômicas.

Os xavante sentem ciúme?

“Nós temos ciúmes sim, assim como vocês, mas o que fazer se a mulher quer mudar o cardápio?”, [disse o Cacique Jurandir Siridiwê] referindo-se a quando a mulher deseja outro companheiro sexual.

Sabedoria Xavante:

Cacique Jurandir Siridiwê, gestor do projeto de turismo na Aldeia Etenhiritipá

(…) minha filha, Bela, a única adolescente do grupo visitante, havia se preparado para participar da corrida ritual Noni, naquele dia exclusivamente destinada às mulheres, mas não conseguiu devido a cólicas menstruais. A anciã que foi chamada para ajudar preparou um chá e orientou que deveria ser tomado sempre morno quando as cólicas se apresentassem. Em seguida, fez uma massagem abdominal e pouco tempo depois ela estava caminhando pela aldeia sem nada sentir.

O amor e o não à violência

Nas conversas que tínhamos e até onde pude observar, não faz parte daquele mundo a prática de espancamentos ou violências psicológicas relacionadas ao ciúme de homens com suas mulheres.

Sobre o amor disse com ironia um dos homens Xavante ao nosso guia Tadeu: “o amor de vocês é tão bom, tão bom, que vocês abandonam suas mulheres, vocês espancam suas mulheres, vocês matam suas mulheres”.

Os homens na esfera pública, as mulheres na esfera privada

Xavante cuida de seu filho

Ao contrário das mulheres, todos os líderes e muitos rapazes Xavante são fluentes em português. Indaguei o Cacique Siridwe a esse respeito, ao que me respondeu “para o Xavante, a representação do mundo é masculina”. Entendi que aos homens cabe a atribuição de porta-vozes da cultura, de suas tradições e dos contatos interculturais (…) Ficou evidente, que o mundo das mulheres, seus rituais e suas narrativas, pertencem à esfera intima das famílias e entre elas, as mulheres.

A Relação dos Xavante com as crianças

Pai e filho xavante em seu cotidiano pela aldeia

E na educação de crianças, também não percebi existir alguma forma de violência com fins educativos ou disciplinador. Pelo contrário, eram muitas as cenas de zelo e demonstração de carinho dos homens para com as crianças.

Um xavante entrando na puberdade

Jovens xavante sendo preparados para se tornarem adultos

No início da puberdade os meninos vão morar com os padrinhos na casa dos solteiros. Os padrinhos são especializados em habilidades específicas que os garotos deverão aprender para entrarem na vida de adulto, entre as quais, construir casas, caçar, pescar, plantar, relacionar-se, descobrir seus dons individuais, fortalecer o corpo e a vontade e compreender o mundo invisível. Tal qual os meninos, as meninas são ensinadas pelas madrinhas, mas continuam morando com suas famílias.

A formação de um Xavante

“A educação, na organização social do Xavante começa dentro de casa, onde as crianças são orientadas a respeitar o próximo e, sobretudo, membros da comunidade que pertencem ao outro clã que faz parte da mesma aldeia” (Waiasse). A primeira aprendizagem acontece no âmbito das famílias que são bastante extensas. Ali convivem meninos e meninas juntamente com o pai, a mãe, tios e avós.

Deduzi que aquele modo de vida desenhava os principais fatores da formação de homens fortes, emocionalmente equilibrados e gentis; bravos guerreiros e humildes, cujos corpos são treinados em inúmeros rituais para suportar frio, calor, dores físicas, privações e a superar o medo, ao mesmo tempo em que são amigos empáticos e solidários com suas mulheres.

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Quer fazer um mergulho na cultura xavante?

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